das (merecidas) férias

   à semelhança do ano passado também este ano aproveitei a semana do 25 de abril para tirar férias. mas, ao contrário do ano passado, em que viajámos para Espanha, estes últimos dias foram passados cá dentro, mais propriamente em ribeira de pena. e, depois do stress causado pela avaliação da fct às unidades de I&D, foram umas férias bem merecidas.

   efetivamente, a escolha dos locais para férias tem-se prendido com o facto de ele ter doença celíaca e não haver muitos lugares onde possa comer em segurança, com a garantia de que a sua refeição não é contaminada por glúten. a ideia de ter ido a Espanha (e o termos ponderado para este ano também) prende-se, efetivamente, porque no país vizinho existem muitos mais locais certificados que vai garantindo essa segurança. em Portugal há cada vez mais opções, mas o caminho faz-se (demasiado) lentamente.

   neste aspeto é ótimo ver-se que muitos restaurantes se dizem inclusivos porque oferecem opções vegetarianas e vegan, dietas que serão maioritariamente opcionais (com exceções de quem tem alergias que envolvem proteínas animais, como a do leite). contudo, para condições que não são escolhas de pessoas - como a doença celíaca, alergias alimentares, ou até condições físicas - continua a não haver muitas opções. acho uma hipocrisia da sociedade esta questão da inclusividade, mas não há menus em braile, não há opções sem alergéneos ou não há formação para que as pessoas a trabalhar em restauração possam preparar pratos sem alergéneos. e nalguns casos - como evitar o glúten - não seria assim tão complicado. para outros - como a soja - já pode ser mais difícil, mas não impossível. por isso, é de louvar os estabelecimentos que fazem este esforço na segurança alimentar e o trabalho da associação portuguesa de celíacos (apc). bom, sobre este assunto haveria muito mais a dizer, mas não era o objetivo deste texto.

   o objetivo deste texto era fazer um registo das férias passadas no pena park hotel, um fantástico hotel de quatro estrelas no meio da natureza, com spa, piscina exterior e um restaurante certificado pela apc, perfeito para desligar do ritmo frenético da capital. a verdade é que estávamos a precisar. e, se queríamos descansar ao marcar estas férias, também quisemos fazer algo diferente. portanto, optámos por uma solução além da nossa zona de conforto e fomos ao pena aventura, um parque de atividades radicais e onde se encontra o fantasticable: um cabo com cerca de 1.5 km a uma altura de 150m, e cuja utilização permite atingir uma velocidade máxima de 130km/h.

   comprámos o pack vertigem, que inclui uma viagem nesse fantasticable, dois saltos num simulador de queda livre, uma viagem no alpine coaster (uma espécie de montanha russa no meio da natureza), e um percurso de arborismo. decidimos fazer duas atividades de manhã e duas de tarde. de manhã fizemos o arborismo e os saltos, e de tarde o alpine coaster e o fantasticable. claro que para ele, arborismo era algo como passear entre as árvores e casas nas árvores. portanto, fomos os dois sem saber bem ao que íamos. e se eu já tinha feito arborismo na minha adolescência, esta foi, sem dúvida, uma nova experiência. em termos de dificuldade, a atividade dividi-se num percurso médio, um difícil e um muito difícil, sendo que estes dois últimos partilham muitas etapas. eu estava decidido a irmos para o médio, só que uma escola básica estava no parque a realizar atividades e as crianças estavam a ocupar o percurso de dificuldade média. portanto, fomos para o difícil. mal comecei, o meu pensamento foi porque é que as pessoas pagam para fazer isto? mas quando terminei - 50 minutos depois - ficou a sensação de conquista ao desafio - com apenas um susto de queda ao início, e um braço ligeiramente pisado no dia seguinte.

   depois do arborismo, fomos ao topo do parque, para a big tower. até a começarmos, não tínhamos percebido exatamente em que consistia a atividade, porque no site tínhamos visto uma outra que envolvia saltos livres para um insuflável gigante, com possibilidade de saltar de diferentes alturas. percebemos que esta consistiria em saltar do ponto mais alto - 14 metros - e sem insuflável lá em baixo. aliás, no chão não tinha nada, apenas aquele revestimento de espuma/esponja ligeiramente almofadada, como se vê em parques infantis. saltámos à vez, para nos filmarmos um ao outro. e posso dizer aqui que foi das piores experiências da minha vida. depois de o ver saltar (o monitor teve de lhe dar uma "ajuda", porque ele não estava a conseguir ir sozinho), fiquei com ainda mais ansiedade. mas, apesar de reclamar muito, estava decidido em avançar, porque queria mostrar ao meu corpo/cérebro que há picos de adrenalina que não nos matam (e portanto o dia-a-dia pode tentar ser um pouco mais calmo). a subida da torre já foi atribulada, porque a certa altura estava a pensar fogo, isto é mesmo alto, como é que ainda há mais torre? e, já lá em cima, o monitor explica que aquilo é simples. é só prender os dois cabos ao equipamento de segurança, colocar os pés bem na ponta da plataforma e, quando prontos, dar um passo. um passo para o abismo, a 14 metros de altura! mas pronto, lá o fiz sem "ajuda", mas super tenso. e aqueles dois metros em queda livre foram os piores de sempre. a sensação de queda é estranhíssima (literalmente acha-se que se vai morrer) e há um pico de adrenalina que dura apenas um instante, até ao equipamento travar e nos descer em segurança até ao chão. uma experiência que não tenciono repetir. no segundo salto, o meu cérebro estava a perguntar-me porque é que eu estava a repetir aquilo e eu não sabia muito bem o que lhe responder. a segunda queda não foi tão intensa e acredito que depois de cinco ou seis saltos seguidos haveria uma dessensibilização, e faria aquilo na maior.

   em seguida fomos almoçar e voltamos à tarde para uma viagem no alpine coaster, onde os passageiro têm a oportunidade de controlar a velocidade a que viajam. embora para ele tenha sido intenso (diz que quase não travou), para mim a experiência foi agradável o suficiente para aproveitar a vista maravilhosa sobre a serra, sem grandes picos de adrenalina. desilidiu por ser tão curto. recomendo e, se voltar, repetirei.

  depois disso, claro, o fantasticable - a principal atração de ribeira de pena que parece mais difícil do que realmente é. foi uma fantástica surpresa que me deixou com vontade de lá voltar. depois de equipados no parque, seguimos numa carrinha com o monitor e mais um pai e os seus 4 filhos (a mãe perdeu a coragem) para o outro lado do monte. no caminho, a minha ansiedade fez-me suar das mãos à medida que via a altitude a que estávamos. já no topo, vi a família ir antes de mim e percebi que se os miúdos conseguiam ir nas calmas, eu também iria conseguir. claro que - e esta é a história engraçada - com o síndrome do intestino irritável, o me pior pesadelo não é ficar preso a meio do cabo, ou cair para a minha morte. não - o meu maior medo na altura era dar-me uma disenteria, uma soltura, e cagar-me todo na viagem. juro que esta ideia me passou pela cabeça: e se me cago todo pelo caminho, e chego lá com as calças todas borradas? ainda bem que não aconteceu. o arranque foi suave, a aceleração gradual e, apesar de algum vento na boca e nariz, ver o verde dos pinheiros e da vegetação à nossa volta, os carros lá em baixo na estrada, foi uma sensação tão prazenteira que a recomendo vivamente, sem hesitação alguma.

   o resto das férias foi, a bem dizer, passado no hotel sem fazer nenhum. e claro que no último dia já me estava aborrecer um pouco porque eu não sei muito bem como relaxar adequadamente. depois de 4 fantásticos dias, com sol (tivemos sorte) durante a estadia, um mergulho na piscina gelada, e um staff genial, super atencioso e cuidadoso, voltámos a braga para uns dias com a família e alguns amigos, também a tempo de ver o centro da cidade assinalar os cinquenta anos do 25 de abril.

   terminadas as férias, seguimos separados para lisboa. eu, hoje - no comboio enquanto escrevo este texto - e ele na próxima semana, pois terá uma consulta de especialidade em braga, onde é seguido por causa da doença celíaca. volto com sensação de descanso, e a sentir que devíamos todos ter mais tempo para as coisas boas da vida. é que, caramba, a vida é muito mais do que trabalho. por favor, façamos da vida mais do que trabalho e produtividade.

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