Do vandalismo

Reflexão sobre a mobilidade verde em Lisboa e a dificuldade portuguesa em estimar serviços comunitários.

Muito recentemente, o Carlos Moedas, atual presidente da Câmara de Lisboa, partilhou nas suas redes sociais um vídeo sobre o estado das bicicletas GIRA. Nele, salientou algumas estatísticas para caracterizar as consequências de mais de 1400 atos de vandalismo contra os equipamentos e estações, em 2026. Moedas destaca, por exemplo, um custo efetivo de 400000€ que, diz, ser dinheiro dos lisboetas. Apesar de expor dados que ilustram um problema real, não propõe solução alguma para resolvê-lo, para além de um apelo à proteção da GIRA: nas suas palavras, “proteger a GIRA é proteger Lisboa”.

Há quatro anos, mudei-me de Braga para Lisboa. Apesar de Braga ser, muitas vezes, descrita como a terceira cidade do país, as diferenças são abismais, em termos de oportunidades, financiamentos e infraestruturas. Portugal continua, infelizmente, a ser Lisboa. Independentemente disso, as políticas gerais sobre mobilidade sustentável parecem estar a andar para trás em ambas as cidades: Braga irá remover o serviço de trotinetes partilhadas e em Lisboa, a Automóvel Clube de Portugal quer um referendo para se removerem as trotinetes da cidade. Estas decisões parecem ignorar o facto de os problemas que surgem do uso de transportes partilhados, neste caso as trotinetes (mas podiam ser as GIRA), se possam dever mais aos utilizadores e não tanto aos transportes. Em vez de educarmos e fiscalizarmos, removemos as opções verdes que poderiam reduzir o uso do automóvel. Mas o que seria de espantar era a ACP defender algo que não fosse o uso do automóvel…

Mas se o problema é a (falta de) fiscalização sobre o uso destes transportes, também isto poderia ajudar a reduzir o vandalismo apontado por Moedas. Neste contexto concreto, é frequente vermos adolescentes a utilizar a bicicleta elétrica com duas pessoas: uma a conduzi-la, e outra semideitada sobre o volante. Nestas situações, o que fazer? Para mim, a necessidade de fiscalização mais frequente (e com consequências concretas) é inegável. É que, sejamos francos, o que vai o cidadão lisboeta fazer para proteger as GIRA? Perseguir outros cidadãos, policiando-os? Esse não é o trabalho das autoridades? E mesmo assim, o que podem, efetivamente, as autoridades fazer? Prender menores delinquentes? Sabemos que o cérebro adolescente está ainda em desenvolvimento (o que faz com que não controle bem os impulsos), e é normal que isto se traduza num desafio às regras e na adoção de comportamentos que são considerados de risco. Isso ajuda a compreender o fenómeno, mas não o desculpa. Como disse, deve haver consequências concretas para estes comportamentos de vandalismo. Mas parecem-me incoerentes as decisões tomadas. Por exemplo, o serviço das GIRA é destinado a maiores 16, mas nem todos terão conhecimento do código da estrada. Apesar disso, ter um passe navegante válido e ser residente em Lisboa permite a utilização gratuita das GIRA por estes menores, trazendo um risco para a circulação rodoviária (não que os maiores de idade, muitas vezes, não falhem também o cumprimento do código).

Portugal tem sofrido de problemas estruturais e sistémicos em vários domínios, e a Justiça é um dos mais notórios. Poderia discursar sobre os inúmeros casos de corrupção e outros crimes, sobre o tempo que demoram os processos judiciais, ou sobre os custos associados à defesa dos direitos dos cidadãos que gera desigualdades tremendas. Entre todos os cenários que cabem à justiça e às autoridades, duvido que a fiscalização do uso de bicicletas esteja no topo das prioridades (e bem, confesso). Ajustar as estratégias de utilização dos serviços, para que exista equilíbrio e promoção da fiscalização ao nível municipal, parece-me mais sensato do que simplesmente eliminar o serviço na sua totalidade. O objetivo último – promover a mobilidade sustentável – é bom, mas como outras iniciativas em Portugal, peca pela execução. A fiscalização ajudaria, certamente, mas também não resolveria o problema de raiz. Aliás, sobre a manutenção do serviço GIRA, concordo com o Moedas num ponto: todos temos o dever de manter o sistema e equipamentos em condições para serem utilizados pelos outros. Mas isso é o espírito comunitário que, em Portugal, quase já não existe.

E se o vídeo foi partilhado nas redes sociais, obviamente gerou uma onde de comentários racistas. Embora de forma implícita, a grande maioria dos comentários supõe que os vândalos são oriundos de países indostânicos ou africanos. Portanto, este vídeo sem proposta de soluções, contribui, ainda que inadvertidamente, para fomentar um discurso de ódio infundado. Se, estatisticamente, as pessoas de contextos mais pobres tendam a envolver-se mais em criminalidade, isso parece ser independente da origem étnica e racial. Portanto, irrita-me muito quando as pessoas se aproveitam de dados descontextualizados para servir uma narrativa que em nada contribui de forma positiva para a humanidade. Sobretudo para um tema que, a meu ver, é mais provavelmente explicado por questões culturais, enraizadas há décadas.

Há qualquer coisa tuga, que embora não seja única do povo lusitano, será, parece-me, uma característica mais proeminente em países do sul da Europa, talvez derivado do calor. Pode sê-lo, claro, por outras tantas razões, igualmente válidas. Falo de um certo egoísmo, ou talvez de uma certa inveja, que nos faz olhar para o nosso umbigo antes de pensarmos nos outros; de desejarmos, frequentemente mal ao vizinho que tem algo melhor do que nós. A este propósito, refleti já em 2019, quando fiquei uns meses em Mannheim, na Alemanha, sobre esta característica portuguesa. Numa qualquer noite de fim de semana, passeando junto a um shopping fechado (quase tudo fecha durante a noite e fins de semana por lá), reparei que as mesas e cadeiras de uma esplanada estavam simplesmente ao deus-dará na própria esplanada, sem correntes ou cadeados que as prendessem onde quer que fosse. Na altura, fiquei surpreso, porque em Portugal isso não acontece nem nas esplanadas mais pequenas: haverá sempre alguém que acharia que aquela mesa e aquelas cadeiras iam ficar bem na sua varanda ou no seu jardim, ignorando que aquilo tem dono (mesmo que “doado” pelas marcas ao adquirir certas quantidades de produtos para vender). Parece que não somos capazes de respeitar a propriedade alheia. A propósito disso, lembro-me também de uma pessoa que conheci, cujo pai trabalhou na CP muitos anos e levava produtos para casa (sumos, guardanapos, etc.). Este tipo de comportamento (que na verdade constituem furto) está demasiado normalizado, porque se assume que alguém mais rico não precisa assim tanto daquele produto (e.g., mesas/cadeiras) e, portanto, nem é bem crime se as levarmos connosco. Acho esta realidade surreal, mas ela existe e é praticada pelos portugueses de bem.

Portanto, diria que as pessoas não têm, sobretudo na cidade, um espírito comunitário, uma ideia de bem comum, fruível por todos. E isso traduz-se nas práticas diárias, nas cunhas das quais nos queixamos, mas que ignoramos quando nos beneficiam, nas borlas que queremos sem saber as implicações que possam ter. “O meu bem primeiro e, se sobrar alguma coisita, lá pode ser distribuída pelos outros”. Uma cultura que promove a corrupção nos diversos patamares da sociedade, incluindo a política. Uma cultura que elege um espelho de uma população corrupta e egoísta, muitas vezes desfasada da realidade e baseada em crenças oriundas do medo da mudança e do que é diferente.

Sobre as GIRA e outros sistemas partilhados de transporte, chamem-me pessimista, mas creio que o espírito tuga, a ideia de “não é meu, pode estragar-se”, prevalecerá.

30.08.2026, Lisboa

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