Preencho o vazio do aborrecimento com as cores vivas do pequeno ecrã: pequenas doses de dopamina para afugentar os pensamentos que me deixam ansioso ou apático. A distimia que me assola há anos (autodiagnosticada, diga-se de passagem) permeia bem para lá da rotina, minando a tranquilidade das breves férias na natureza. Escuto livros que tento ler simultaneamente nos tons sépia que pretendem, em vão, imitar as páginas de um a sério, feito de papel. Não tem, contudo, o mesmo efeito. Nem do livro a sério – faltam-lhe o cheiro e o toque; nem da navegação repetida em catadupa, cheia das vivas cores que nos prendem a atenção. Não há como competir. O desafio é, pois, largar o pequeno ecrã e abraçar, sem medo, o aborrecimento. Florescer nele.
Ainda não fui capaz.
escrito a 09.08.2026, Olival (Ourém)