Exercício de escrita #1

É claro que não sei o que escrever, mas o objetivo não é esse. O objetivo, segundo Miguel Esteves Cardoso, é ganhar o vício da escrita. e, para isso, tenho de escrever.

Faz-me lembrar as aulas do meu curso de Psicologia, da área da Psicologia da Educação dadas pelo professor João Lopes. A propósito da avaliação de competências de leitura de crianças em idade escolar, ele ficava muito pasmado e um pouco irritado por todos os profissionais que passavam provas ou teste de inteligência. “Se o problema é a leitura, o que se deve avaliar é a leitura!”, dizia. E tinha razão.

Por isso, também me faz sentido a visão do Miguel Esteves Cardoso sobre “como escrever”. E, portanto, cá estou eu a escrever.

Outra coisa que, segundo ele, é essencial, é ter a cabeça vazia. Só no vazio é que surge o conteúdo para ser escrito.

E é aí, acho, onde reside o meu problema. (Já) Não gosto desse vazio. Esse vazio dá-me ansiedade. Por isso, evito-o e vou ocupando o pensamento com outras coisas: jogos, séries, redes sociais. Enfim, a dopamina fácil e viciante. Isto é, quando efetivamente o vazio se aproxima… É que à semelhança do que diz Bruno Nogueira, “cá dentro faz muito barulho”. Com tanta coisa a acontecer cá dentro, fica difícil dar-me ao luxo de parar para esvaziar a cabeça.

É por isso que, para escrever, tenho recorrido a estímulos externos. A minha escrita tornou-se mera reação a alguma coisa que vem de fora. É isso ou, de vez em quando, fazer batota para suportar o vazio: ponho auscultadores nos ouvidos e procuro músicas que me deixem concentrado o suficiente para poder, finalmente, escrever. Mas, normalmente, já vou com um objetivo, uma meta. E isso não parece ser desejável no processo de escrever.

Olhei agora o relógio e já são 21:03, o que significa que já ocupei treze minutos a escrever. Não é muito, mas é melhor do que ontem; e que todos os outros dias antes desse no último mês. Uma das minhas dificuldades práticas será essa: escrever 1h por dia, todos os dias.

Para quem trabalha 8h – e fica 9h no local de trabalho, acrescidas de quase 1h para deslocações – usar 1h dedicada exclusivamente à escrita, algo que requer a cabeça vazia é, à falta de outra palavra, fodido. Há o cozinhar, há o querer ir ao ginásio ou à piscina, e há o querer descansar, desligar do mundo e focar-me numa atividade que não requeira esforço cognitivo. Mesmo que me aborreça e me torne estúpido; mesmo que me esteja sempre a queixar de quão estúpidos estamos todos a ficar.

Mas se este exercício de escrita (que há de ir para o blogue) me está a ocupar assim o tempo e nem custou muito, se calhar é mesmo possível. Pensando no que aprendi acerca da cognição e do comportamento humano (já lá vão mais 8 minutos), talvez possa começar com uns 30 minutos diários? Primeiro aos fins de semana, depois expando a todos os dias. Só que, se for assim, talvez não resulte. Talvez o Miguel Esteves Cardoso esteja certo, que ele anda nisto há muitos anos e eu estou só a fazer de conta…

Será que são desculpas que arranjo? Ou são outras coisas, como a minha pressão para escrever as coisas perfeitas à primeira? Estive a aprender em como escrever que primeiro só se registam apontamentos, ocorrências (no fundo, notas); só depois se escrever tudo (i.e., deitar tudo cá para fora); e só depois de se ter escrito tudo é que se vai ler e editar o que se escreveu. Não sei se tenho paciência!

Sou como os Gen Z, que querem tudo no imediato. Queria escrever o meu livro de poesia numa hora, e tem já de sair perfeito!

Estive agora a tentar rever o teto, mas isso é para depois. Agora é para escrever, pelo menos mais uns minutos.

Estou em Pombal, parado dentro do Intercidades 723 com destino a Braga – sim, fui ver o número do comboio na edição do texto, mas esta frase já estava escrita. E este exercício aconteceu porque estas viagens de quase 4h (ai, os atrasos!) dão para uma pessoa se aborrecer. Talvez também porque estou de férias e é mais fácil esvaziar a cabeço. Quero dizer, “estou de férias”, mas só as comecei há umas horas.

Também não sei bem estar de férias. Quero sempre descansar e relaxar e depois não sei como se faz isso. Dou por mim a verificar o email do trabalho e tudo; sobretudo se fico por casa. Por isso, nestas férias vou viajar: uma espécie de lua de mel com um mês de atraso.

Bom, olhei de novo para as horas. São 21h23. Escrevi durante 33 minutos. Trinta e três, como a minha idade. É um bom ponto de partida.

Vou parar por aqui. 

escrito a 25.07.2025, comboio Lisboa-Braga

0