Exercício de escrita #2

Estou, mais dia, menos dia, há três anos em Lisboa. E, mais coisa, menos coisa, estou há três anos com a escrita entorpecida. Já percebi que não é só o pavor da página em branco, mas algo mais que me dificulta a tarefa. Segundo o manual “como escrever”, continua a faltar-me o vício de escrever e, como é óbvio, a rotina de base para que esse vício surja.

Há muito tempo que queria tentar descrever o meu percurso desde casa até ao trabalho, mas nunca me pareceu suficientemente sumarento para o fazer. Tenho a sensação de que não há nada de interessante no meu quotidiano ou, pelo menos, nada que mereça ser contado ou partilhado. E muito menos no percurso entre casa e o trabalho. Acho que essa sensação foi ficando, qual nuvem negra pairando, sobre mim, e se solidificou num sentimento – algo mais permanente. Hoje, a minha palavra escrita não vale nada. Há demasiada informação em todo o lado, para quê acrescentar mais ruído?

Mais uma vez, veio o Miguel Esteves Cardoso fazer-me repensar isto. As minhas palavras valem muito, porque são só minhas, e só eu as posso dizer. Ou melhor, escrever. É que dizê-las, antes de escritas, é outro problema que tenho. É, esse é definitivamente outro problema: gosto muito de me ouvir falar. A verdade é que gosto de conversar com as pessoas, discutir temas mais ou menos fraturantes, influenciado pela minha curiosidade sobre o comportamento humano que me fez estudar psicologia há uns 15 anos atrás. E sobre essa influência, gosto de partilhar o meu ponto de vista e tentar compreender o dos outros, sobretudo quando discordamos. Mas hoje o mundo não está muito para discórdias, não é?

Temos andado muito sensíveis, ou é impressão minha? Nos últimos anos, observo que as pessoas estão todas com os nervos à flor da pele. Parecemos todos demasiado reativos a coisas que poderiam ser resolvidas de forma calma e pacífica. Mas acho que o cenário nacional (e.g., salários baixos, crise da habitação, populismo a crescer) e o pano de fundo mundial (e.g., Trumpzices, guerras, alterações climáticas) não ajudam. Enfim, lembrei-me daquele episódio do ano passado, de dois homens no trânsito à pancada na zona de Lisboa, com o filho de um deles no carro, e agora mais recentemente o senhor morto a tiro também no carro (que afinal pode ter sido ajuste de contas e não irritações no trânsito). Já não sabemos discordar dos outros e viver em paz com isso. Agora é tudo extremado. Já tinha refletido sobre isso e como as redes sociais intensificam o comportamento tribal de “ou pensas como eu ou és o inimigo”. Ou, a achar que toda a gente tem de ter uma posição sobre qualquer assunto (como o Bruno Nogueira refletiu várias vezes no seu podcast). Isto agora vê-se em tudo.

Mas estou a divagar bastante. O objetivo deste exercício de escrita era registar o meu percurso casa-trabalho, como imaginei fazer há quase três anos. Só que em três anos, também isso se alterou.

Ao sair de casa – alugada, e partilhada com o meu cônjuge, porque seria impensável ter casa própria em lisboa – há quase sempre sol. Mesmo quando faz frio, a capital é mais solarenga do que a minha terra-mãe (não fosse Braga conhecida como penico do céu). E quase sempre, de manhã, pude ir reparando nos estudantes de uma escola artística da zona onde moro.

Acho fascinante reparar nos estilos de adolescentes que tentam ao máximo ser únicos, sem notarem que, ao fazê-lo, estão todos a ser idênticos. É o paradoxo da adolescência: querer ser único pertencendo ao grupo. Bom, talvez não seja exclusivo da adolescência, mas nela é mais marcante (ou se calhar alguns adultos nunca crescem). Gostava que as pessoas percebessem que cada um de nós é, já, único. Não só pelo ADN, porque há pessoas que partilham a mesma sequência genética (i.e., gémeos), mas pelas experiências únicas que temos ao longo da vida e que nos fazem, invariavelmente, únicos. Se trabalhássemos mais pela aceitação da nossa singularidade, talvez vivêssemos num mundo melhor.

A verdade é que, entre todos os jovens de cabelo pintado, vestidos de preto, ou ao estilo dos anos 90 do século passado, as pessoas que se vestem de forma mais “normal” (menos espalhafatosa, que chama menos a atenção), acabam por – paradoxalmente – serem quem sobressai. Imagino o bullying reverso feito aos normies, que não são artísticos o suficiente. Ao mesmo tempo, há coisas positivas: veem-se jovens a namorar com outros do mesmo sexo. Acho ótimo que haja hoje mais liberdade para, pelo menos, explorarem a sua sexualidade sem tanto medo. Isso é bom.

Depois, sigo caminho em direção ao metro. Linha vermelha: terrível em hora de ponta, e com mais de 10 minutos de espera nos restantes horários. Bom, o pior de ir para o trabalho de metro é, para além da sensação sardinha enlatada, o calor. Durante estes três anos, quase sempre chegava suado ao trabalho. E, embora já tenha descrito aqui no blogue que isso é causado, em parte, pela pressa que a cidade nos incute, o problema é mesmo a temperatura do metro. É um inferno.

Portanto, a viagem no metro implica uma troca de linha. Implica lidar com multidões a entrar e sair das carruagens e toda a logística complicada associada; e implica ficar uns 20 a 30 minutos a sós com os meus pensamentos. Por isso mesmo, o habitual é ouvir o podcast do Bruno Nogueira (às segundas-feiras), ou ouvir música. Houve também uns meses em que ocupei o tempo de viagem com livros áudio, emparelhados com a leitura no telemóvel. Mas isso já foi há algum tempo.

Há outra particularidade quando vou de metro para o trabalho. À saída da estação há um continente bom dia e todas as manhãs há um cheiro a frango assado no ar. Confesso que nem sempre desgosto. Depois, é subir uma avenida até à universidade. Nada de muito interessante, efetivamente.

Contudo, em abril deste ano, redescobri as GIRA, as bicicletas de Lisboa incluídas no passe para residentes, que é o meu caso. A app melhorou ligeiramente (embora ainda seja uma valente merda) e agora vou quase todos os dias para o trabalho de bicicleta elétrica. Foi uma revolução para o meu dia-a-dia. Deixei de chegar suado ao trabalho (bom, excetuando aqueles dias com picos de calor no verão), e já não me deparo com tanta falta de civismo como no metro. Sim, ainda vou encontrando pessoas idiotas, nomeadamente condutores e velocípedes, e também imensas pessoas que, pela forma como ocupam as ciclovias, só podem identificar-se como bicicletas. Ainda assim, além de demorar menos tempo em comparação com a viagem de metro (já que a troca de linha pode implicar uma espera de uns minutos), estou ao ar livre, vejo mais verde e apanho ar nas trombas. E isso, parecendo que não, é muito agradável. 

escrito a 28.08.2025, Lisboa

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