Sento-me em casa dos meus pais a trabalhar. É simultaneamente estranho e interessante. Estranho porque é como voltar ao passado, revisitando rotinas longínquas; interessante porque essa viagem traz coisas novas também, incluindo o contraste do que é viver na capital.
São vários os sons que interrompem o silêncio da periferia. O sino da igreja faz-se ouvir nítido apesar da distância, badalando a cada hora ou anunciando a morte de alguém. Os galos cantam e os pássaros chilreiam, apesar da chuva. Quando olho para lá das janelas, há o verde dos campos de cultivo, mas também a vegetação do jardim e do quintal dos meus pais. Na linha do horizonte há montes e a distância do Gerês. De um lado vê-se, ainda, o Sameiro, minúsculo de repente. E vislumbro pegas e bandos de pombos que esvoaçam no céu branco, meio acinzentado.
As dinâmicas familiares aproximam-se de uma imutabilidade que permanece apesar do afastamento, temporal e físico. Como se só eu, que estou longe, mudasse a forma como vejo o mundo. Mas eu sei que não é bem assim. A permanência num lugar, seja ele qual for, molda a forma como estamos no mundo. Portanto, presumo que sejam as saudades que forcem, a todo o custo, que as interações salientem as intenções que se querem fazer claras através de um cuidar excessivo. Ou seja, a minha mãe age como se eu ainda fosse criança e quer agradar-me em tudo. E eu, tentando que a nossa relação seja algo mais equilibrado, resisto e crio fricção. A fricção escala e é isso que recupera as dinâmicas menos positivas que já existiam no passado. Isto é, do meu ponto de vista.
Estas visitas, contudo, estão menos tensas e há, das duas partes (família e eu), um esforço maior de aproveitar os momentos juntos. É que, no final das contas, o tempo passa para todos e, parece-me, cada vez mais depressa. Por isso, inspirado pelo Bruno Nogueira, quero criar um registo perpétuo de vozes e imagens que permita lembrar-me das pessoas e das nossas interações, apesar do quão disfuncionais possam ser. Uma eternização de quem éramos, fomos, somos, juntos.
escrito a 27.10.2025, Braga