Exercício de escrita #4

Entre reflexões diárias, este texto explora episódios de infância, hábitos, e a procura de um propósito.

No auge desta minha depressão, vejo-me frequentemente a refletir sobre a minha vida diária, as rotinas pouco saudáveis e a falta de um propósito que me guie. Na viagem de comboio para Cascais em direção ao Ageas Cool Jazz, recuperei uma ideia que me surgiu e registei em maio passado sobre hábitos.

A minha mãe deixava, e ainda deixa, sempre, mas sempre, a mesa do pequeno-almoço pronta no dia anterior. É um hábito que desenvolveu, não sei ao certo quando (talvez um dia lhe pergunte), mas que observo desde a minha infância. Numa família típica portuguesa, fortemente sujeita às pressões patriarcais dos papéis de género, a minha mãe era, foi, e continua a ser, como tantas outras mulheres, uma força da natureza. Três empregos: trabalhadora, dona de casa e mãe. Frequentemente, fazia mais de 8h na empresa, porque, a bem dizer, vivíamos no mesmo recinto. Para dar contexto, a empresa do meu avô e filhos, uma recauchutagem de pneus, foi criada de raiz numa garagem junto de sua casa e foi crescendo também à sua volta. Efetivamente, também à volta casa que os meus pais alugavam à minha avó e em que viveram – vivemos – até aos meus 15 anos. Foi essa mesma proximidade que fez com que eu crescesse no meio dos pneus e do campo de cultivo onde a minha avó tinha animais e muitas plantas. Lembro-me de apanhar nozes no telhado em troca de uma moeda que gastava nas máquinas de venda automática da empresa, comprando refrigerantes e snacks para fazer lanches com os primos.
Mas tentava dizer que essa proximidade entre o lar e o local de trabalho, muitas vezes confundidos fisicamente, talvez tenha dificultado a divisão entre a vida profissional e a doméstica. Os limites eram demasiado ténues. Isto era acentuado pelo facto de o meu pai também trabalhar na empresa e ser subordinado hierárquico da minha mãe. Assumindo que a posição da minha mãe desafiava o papel tradicional de género de forma a frustrar, de alguma forma, o meu pai, e/ou porque a minha família nunca foi assertiva na comunicação (nem no local de trabalho), havia muitas discussões que eles traziam para casa, e às quais eu e a minha irmã fomos sobrevivendo. Neste desequilíbrio de contextos, a minha mãe chegava frequentemente tarde a casa para se dedicar aos seus outros dois empregos, com as lides domésticas e o ser mãe. Portanto, a dinâmica familiar era também afetada. Ainda assim, ou por isso mesmo, o ritual de deixar a mesa posta para o pequeno-almoço do dia seguinte, depois de lavar a loiça do jantar e arrumar a cozinha (e antes disso ter cozinhado), era uma forma de contornar a pressão do tempo, todos os dias. Por outras palavras, o adiantar de um novo dia em que o seu futuro “eu” ficaria grata por poupar valiosos minutos na sua laboriosa rotina.
A minha reflexão vai além disso. Este simples hábito de deixar a mesa de pequeno-almoço posta na noite anterior demonstra uma qualidade (por vezes defeito) da minha mãe tem: um otimismo e uma esperança no futuro invejáveis, que permitem ter como garantido que o dia de amanhã existe e que vai começar bem, com um bom pequeno-almoço em família. Penso que a partir desse hábito, ao longo de anos e anos a viver com os meus pais, eu mesmo desenvolvi um outro: não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço.
Hoje, e já há uns anos, custa-me a sair da cama. Não vejo um propósito na minha vida que me tire imediatamente da ronha dos meus lençóis. A mudança recente de trabalho agravou a situação. No panorama global (economia, política, IA, humanidade) não considero a minha postura desajustada – é, antes, uma reação emocional algo compreensível. Contudo, há contas para pagar, há tarefas a cumprir e resultados a apresentar. E como este estado emocional está a entrar conflito com estas e outras obrigações da sociedade contemporânea, convém arranjar um propósito em breve. Não estou a conseguir sozinho e, portanto, vou tentar pedir ajuda profissional. Decidi consultar uma vidente. Calma, calma, estou a brincar. Vou explorar – mais uma vez – a psicoterapia.

02.08.2026, Lisboa

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